Daniel Barbosa


FISSURAS



A parede era robusta, aparentemente inabalável.
Suportava ventos fortes e chuva intensa há anos.
Fazia parte de uma grande fortaleza, a qual ninguém arriscava atacar porque
parecia ser intransponível.
No entanto, na sua face sul, onde o sol raramente tocava havia uma
irregularidade quase imperceptível.
Era o resultado da pressa em sua execução ou, quem sabe, do descuido de um
dos executores da obra.
Agora, porém, isso pouco importava, afinal, aquela muralha estava erigida
ali há tempos e os responsáveis por ela nem mais andavam sobre a terra.
No entanto, aquela imperfeição ao longo dos anos acabou servindo de depósito
natural da água da chuva e dos detritos trazidos pelo vento.
Aos poucos a água foi se infiltrando no muro e trilhando um caminho próprio
em busca de uma saída entre as rochas reunidas por espessa argamassa.
Com o passar do tempo, uma fissura surgiu onde antes havia apenas uma
depressão quase invisível.
Essa fissura, alimentada pelas águas das chuvas e pelo limo que invadira a
parede úmida e fria, foi se expandindo, até tornar-se uma assustadora
rachadura.
Agora, era vista mesmo à distância, e parecia ameaçar a solidez daquela
estrutura.
O tempo corria veloz sem que providência alguma fosse tomada.
A rachadura já corrompia a parte inferior do muro que, atingida pela
umidade, deteriorava-se a olhos vistos.
Em uma noite fria, quando o temporal ruidoso e inclemente avançava sobre a
praia próxima, a ventania atingiu a muralha com violência.
A muralha, que suportara tempos antes ventos ainda mais fortes, desta vez
não resistiu.
Corrompida pela água, que durante anos deteriorou sua base e parte de seus
materiais, a grande parede cedeu.
Tombou pesadamente como se estivesse cansada de resistir em vão.
Como um robusto carvalho se permite um dia tombar depois de tantos anos de
majestade, também aquela murada, traída pela pequena fissura, entregou-se à
ação do tempo.
Uma simples fissura, decorrente de uma imperfeição aparentemente
insignificante, causou a queda do grande muro.
E hoje, os que passam ao lado das ruínas daquilo que um dia já foi uma
imponente fortaleza, ignoram que a destruição daquele monumento grandioso
iniciou-se com uma mera e banal rachadura.

Assim também são os vícios humanos.
Hábitos infelizes, considerados como atitudes corriqueiras e comuns na
sociedade, podem corromper grandes mentes.
Hoje são apenas "fofoquinhas" a servir de passatempo aos desocupados.
Amanhã serão mentiras ardilosas a destruir lares e prejudicar vidas.
Hoje são apenas goles de bebidas alcoólicas para descontrair.
Amanhã serão drogas ainda mais pesadas a arruinar centros nervosos e
lesionar profundamente os destinos.
Hoje são pequeninas barganhas para garantir que as crianças obedeçam.
Amanhã serão pesados subornos para realizar o que o dever já impunha desde
muito.
Os vícios surgem como pequeninas fissuras na conduta humana.
Em um primeiro momento não despertam grandes receios e chegam, até, a ser
ignorados pelos menos avisados.
No entanto, com o passar do tempo, vão se agigantando e invadindo o espaço
que deveria ser da virtude.
Abalam estruturas que pareciam sólidas e destroem futuros venturosos.
Arrastam o ser para o lodaçal da culpa e do arrependimento, onde se
encontram chafurdados os escombros das ilusões do ontem.

Equipe de Redação do Momento Espírita.



Escrito por Daniel às 09h45
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A VONTADE DIRIGIDA


O psiquiatra recebeu em seu consultório um paciente com depressão aguda.
Segundo a família, ele estava naquele estado há mais de 5 anos e já havia
tentado suicídio várias vezes.
Agora estava ali, diante do médico, em busca de um remédio que o curasse de
forma instantânea.
O médico, acostumado a todo tipo de paciente, olhou-o no rosto e falou com
firmeza: "Tenho duas notícias para lhe dar. Uma delas é que ainda não existe
um remédio para a sua doença."
O paciente contorceu-se na cadeira, e perguntou um tanto irritado: "e a
outra notícia?"
"Bem, a outra notícia é que a sua cura depende da sua vontade".
"Como assim, Doutor? Eu não tenho vontade para nada. Não tenho vontade de
trabalhar, nem de comer, nem de falar com pessoas. A vida não tem mais
sentido para mim."
O psiquiatra, que o observava com atenção, lhe falou com voz muito firme:
"você está cheio de vontade."
Aí o paciente não se conteve, deu um murro sobre a mesa e retrucou nervoso:
"o senhor está brincando comigo? Eu já lhe disse que não tenho vontade,
Doutor."
Sem se alterar, o médico voltou a afirmar: "o senhor tem muita vontade, sim.
Tem vontade de não trabalhar, de não comer, de dormir, de não falar com
ninguém, e vontade de se isolar do mundo."
"Mas a vida não tem sentido para mim". Tornou a dizer o paciente.
O médico, conhecedor das causas que levam a pessoa a esse estado de ânimo,
disse-lhe: "você está é com raiva do mundo e por isso deseja matar-se, para
punir aqueles que o infelicitaram e que não consegue perdoar."
Nesse momento o homem quase teve um surto. Levantou-se e gritou,
enlouquecido: "Eu nunca vou perdoá-los! Meu patrão me despediu, acabou com a
minha vida, meus irmãos me roubaram a herança e..."
E desfilou uma lista de nomes de pessoas que odiava com toda força de seu
ser.
Então o psiquiatra voltou a dizer: "somente quando você perdoar conseguirá
se livrar desse ácido que o corrói e o está matando, dia após dia."
E aquele homem enorme, falou entre dentes: "eu nunca vou perdoá-los".
O médico aproveitou a oportunidade para reafirmar ao seu paciente que ele
estava cheio de vontade, mas dirigida para a própria infelicidade.

Vale a pena meditar sobre a direção que estamos dando a nossa vontade.
Até quando dizemos que não temos vontade, estamos usando nossa vontade para
não sentir vontade.
Se dizemos que não sentimos vontade de viver, podemos afirmar que, na
verdade, estamos com vontade de não viver.
Estamos com vontade de fugir do mundo, com vontade de dormir, de ficar num
quarto fechado, com vontade de morrer...
Mas a vontade está ativa. Somente está sendo dirigida para onde nossa razão
desejar.
Se você ainda não havia pensado por esse ângulo, pense agora.
Lembre-se de que a vontade é uma força neutra que existe em nós, capaz de
definir nossas ações. Basta que saibamos dirigir essa força de acordo com
nossa escolha.
Se escolhemos ter vontade de morrer, podemos direcionar essa força para a
vontade de viver. A força não se altera, mas alteramos a direção.
Se escolhemos ter vontade firme de não perdoar, de manter o desejo de
vingança, podemos dirigir essa força para a indulgência, para o perdão.
O que geralmente acontece, é que sentimos prazer mantendo esse estado de
coisas. Sentimos prazer em chamar a atenção dos outros, fazendo-nos de
vítimas.
Essa autopiedade é extremamente perigosa, pois pode nos levar a situações de
maior infelicidade ainda.
Por todas essas razões, vale a pena direcionar a nossa vontade com lucidez.
Com o desejo sincero de construir a nossa felicidade efetiva, sem o prazer
mórbido de infelicitar aqueles que nos infelicitam.
Pense nisso, mas pense agora.

Equipe de Redação do Momento Espírita, com base em palestra do Dr. José
Roberto Martinez, no Teatro da FEP, em 03/04/2005.



Escrito por Daniel às 02h32
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